terça-feira, janeiro 11, 2005

Copule-se! Ai o pénis!

Acabei de me lembrar que tinha esta pérola guardada. Este texto não é meu, nem eu tenho qualidades para produzir uma obra desta grandiosidade. O seu autor, diz-se, é uma pessoa com umas orelhas que chamam a atenção, uma língua irrequieta e que dá pelo nome de Miguel Esteves Cardoso. Vale a pena ler.

«Já me estão a cansar... parem lá com a mania de que digo muitos palavrões, caralho! Gosto de palavrões! Como gosto de palavras em geral. Acho-os indispensáveis a quem tenha necessidade de dialogar... mas dialogar com caracter! O que se não deve é aplicar um bom palavrão fora do contexto, quando bem aplicado é como uma narrativa aberta, eu pessoalmente encaro-os na perspectiva literária! Quando se usam palavrões sem ser com o sentido concreto que têm, é como se estivéssemos a desinfectá-los, a torná-los decentes, a recuperá-los para o convívio familiar.

Quando um palavrão é usado literalmente, é repugnante. Dizer "Tenho uma verruga no caralho" é inadmissível. No entanto, dizer que a nova decoração adoptada para a CBR 900'2000 não lembra ao "caralho", não mete nojo a ninguém. Cada vez que um palavrão é utilizado fora do seu contexto concreto e significado, é como se fosse reabilitado. Dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação. Quando uma esferográfica não escreve num exame de Estruturas "ah a grande puta" ("... não escreve!"), desagrava-se a mulher que se prostitui.

Em Portugal é muito raro usarem-se os palavrões literalmente. É saudável. Entre amigos, a exortação "Não sejas conas", significa que o parceiro pode não jogar um caralho de GT2. Nada tem a ver com o calão utilizado para "vulva", palavra horrenda, que se evita a todo o custo nas conversas diárias. Pessoalmente, gosto da expressão "É fodido..." dito com satisfação até parece que liberta a alma! Do mesmo modo, quando dizemos "Foda-se!", é raro que a entidade que nos provocou a imprecação seja passível de ser sexualmente assaltada. Por ex.: quando o Mário Transalpino "descia" os 8 andares para ir á garagem buscar a moto e verificava que se tinha esquecido de trazer as chaves... "Foda-se"!! não existe nada no vocabulário que dê tanta paz ao espirito como um tranquilo "Foda-se...!!".

O léxico tem destas coisas, é erudito mas não liberta. Os palavrões supostamente menos pesados como "chiça" e "porra", escandalizam-me. São violentos. Enquanto um pai, ao não conseguir montar um avião da Lego para o filho, pode suspirar após três quartos de hora, "ai o caralho...", sem que daí venha grande mal à família, um "chiça", sibilino e cheio, pode instalar o terror. Quando o mesmo pai, recém-chegado do Kit-Market ou do Aki, perde uma peça para a armação do estendal de roupa e se põe, de rabo para o ar, a perguntar "onde é que se meteu a puta da porca...?", está a dignificar tanto as putas como as porcas, como as que acumulam as duas qualidades. Se há palavras realmente repugnantes, são as decentes como "vagina", "prepúcio", "glande", "vulva" e escroto".

São palavrões precisamente porque são demasiadamente inequívocos... para dizer que uma localidade fica fora de mão, não se pode dizer que "fica na vagina da mãe" ou "no ânus de Judas". Todas as palavras eruditas soam mais porcas que as populares e dão menos jeito! Quem é que se atreve a propor expressões latinas como "fellatio" e "cunnilingus"? Tira a vontade a qualquer um! Da mesma maneira, "masturbação" é pesado e maçudo, prestando-se pouco ao diálogo, enquanto o equivalente popular "esgalhar um pessegueiro", com a ressonância inocente que tem, de uma treta que se faz com o punho, é agradavelmente infantil.

Os palavrões são palavras multifacetadas, muito mais prestáveis e jeitosas do que parecem. É preciso é imaginação na entoação que se lhes dá. Eu faço o que posso.»

21 comentários:

TRAlves disse...

O grande Miguel Esteves Cardoso... Penso qe já tinha lido este texto num dos seus livros de crónicas (penso que foi n'"Os meus problemas"). Recomendo a leitura dos livros deste verdadeiro mestre do devaneio que marcou toda uma geração (não foi a minha, mas perguntem à Sra.Sofia :D). Recordo-me desses grandes clássicos como o factor SPAC (saltar para a cueca) e a modelo económico baseado em Pinta (uma pessoa devia poder comprar coisas baseado não no dinheiro, mas na pinta que tem).

Sofia Bento disse...

Ah, sr, TRAlves, havemos de ter uma conversazinha sobre gerações, havemos, havemos...
Do MEC lembro-me que disse uma vez, a propósito da leitura, que era uma tolice (não foram estes os termos exactos) ler autores portugueses por serem portugueses. Concordo. Principalmente agora, com as abomináveis produções que proliferam por aí...

Recomendo a "Causa das coisas", em estilo dicionarístico (querem ver que inventei mais uma?) e profundamento delicioso: está na barra para a bibliografia do tal texto que um dia, um dia publicarei no âmbito deste mestrado.
Depois, para a minha geração recordar e para a geração do Sr. TRAlves aprender alguma coisinha na área da música, recomendo o "Escrítica Pop". Foi reeditado há pouco tempo pela Assírio&Alvim.

Peewee69 disse...

Miguel Esteves Cardoso, é um grande escritor.
Neste momento ele escreve uma coluna semanal no semanário Blitz. Supõem-se que mais tarde, da mesma forma como acontecera com "Escrítica Pop", que todos os seus textos sejam compilados num livro.

Como crítico musical nunca me convenceu. Tem gostos demasiadamente definidos, considerando que a musica actual não passa da uma cópia da cópia, o que parcialmente poderá ser verdade, mas nunca será absolutamente verdade. Existem grandes autores que actualmente fazem musica.

Um dos textos que me deu grande gozo em ler foi quando ele definiu o conceito de "oto-verme", como sendo todo e qualquer tipo de musica que fica na cabeça e insiste em ficar na cabeça durante o dia todo. Quando temos musica popular dita "pimba" aí o assunto piora: conseguimos propagar este "oto-verme" para outras pessoas. Oto-verme é pior que um virus!!

RJT disse...

Eu, pessoalmente, gosto de "merda" (esta frase não me soou muito bem, mas adiante). Acho que é uma palavra fantástica. Já o "foda-se" prefiro substituir por "dasse" (acho que tem melhor flow). Relacionado com esse verbo, gosto muito do "Fode-te" (lido como "fodte"). O "caralho" já não sou grande fan, embora de vez em quando também use, especialmente "Pó caralho!" (sem o "vai", lido "Poker Alho"). "Cona" não gosto mesma nada (mais uma vez não me soou bem).

RedScout disse...

Permite-me que comente o teu comentário...

Eu, pessoalmente, gosto de "merda".
Como se costuma dizer, gostos não se discutem, mas nunca pensei que gostasses disso.

Já o "foda-se" prefiro substituir por "dasse"
Eu normalmente também uso o 'dasse'.

O "caralho" já não sou grande fan, embora de vez em quando também use,(...)
Eu uso todos os dias, nem que seja pra mijar.

"Cona" não gosto mesma nada.
Não comento. Um gajo que diz que não gosta disso não é gajo...

RJT disse...

Já agora, vou também comentar o teu comentários

Permite-me que comente o teu comentário...
Eu permito, mas se não permitisse qual era a diferença? Já comentaste!


Eu, pessoalmente, gosto de "merda".
Como se costuma dizer, gostos não se discutem, mas nunca pensei que gostasses disso.
Sempre à procura da piadinha fácil. Merda está entre "", e para além disso omististe o que eu escrevi entre (), porque não te convinha.
Costumas pensar do que é que eu gosto? Se pensasses um bocadinho mais nisso, havia de te surgir essa ideia.


Já o "foda-se" prefiro substituir por "dasse"
Eu normalmente também uso o 'dasse'.
Pois é... Vamos indo. Tá fresquinho! Pois...


O "caralho" já não sou grande fan, embora de vez em quando também use,(...)
Eu uso todos os dias, nem que seja pra mijar.
Já viste que coincidência? Eu também.


"Cona" não gosto mesma nada.
Não comento. Um gajo que diz que não gosta disso não é gajo...Para além do comentário semelhante ao do "merda", tenho que acrescentar que acho ofensivo esse teu comentário sobre o facto de um gajo que não gosta disso não ser gajo.

TRAlves disse...

Sra.Sofia, já são muitas as conversas que temos de ter, hein?

Confesso que poderia estar mais ansioso por elas, não fosse facto de muitas já trazerem a promessa de puxões de orelha, ou melhor, "valentes puxões de orelha". Posso garantir que as minhas orelhas já são de tamanho considerável, pelo que exercer forças externas no sentido do crescimento natural das mesmas em nada abonará a favor da minha imagem (por outro lado, não poderei ficar muito mais desfigurado).

Peço ainda que abandone a ideia de tentar causar-me dor de qualquer outra forma (estou bastante confiante na imaginação da Sra. Sofia), na medida em que nas várias vezes em que "brinquei" consigo era com um sentimento de carinho amigável. Em todo o caso, se em alguma coisa a ofendi ou em que a tenha deixado um pouco incomodada, peço-lhe que perdoe a minha língua muitas vezes leviana e imprópria (que caracteriza a geração:)).

A lista de "pessoas que podem eventualmente aleijar-me" já ultrapassou há muito o o número que me permite adormecer descansado. Por outro lado, acho que ando a pensar muito sobre este assunto.

Sofia Bento disse...

O sr. RJT é o orgulho desta casa. Muito bem.

Estava com esperanças de poder fazer parte da "lista de 'pessoas que podem eventualmente' aleijar o sr. TRAlves", mas se é assim...
De facto, o cavalheiro anda a pensar demasiado nesta matéria e a culpa é toda minha. Há-de existir um dia em que estarei com o sr. TRAlves e poderei discutir este assunto. Até lá parece-me pouco simpático gerar expectativas neste jovem. Afinal, para quê preocupar-nos com algo, ainda que inevitável, antecipadamente?
Até lá, sr. TRAlves, poderá dormir descansado.

Ivo Jeremias disse...

Bem, um gajo distrai-se durante umas horas e as conversas aqui atingem picos de tão elevada complexidade de compreensão que faz-me lembrar certas Novelas que passam na TV, perdes um episódio andas 5 episódios a "ánhar"...

RJLouro disse...

novelas que perdes um episódio e perdes a história?? Confesso que desconheço tal existência, a não ser talvez _A_ novela, o Twin Peaks, mas chamar isso de novela é como beber uma carlsberg e dizer que a Tagus tá fresquinha...

Já em relação a palavrões, uso fluentemente mas tento ao máximo não usar em piadas. É sempre fácil fazer piadas com palavrões (ver Fernando Rocha), agora tirem os palavrões e vejam se continua com piada. É tipo o alcohol para gajas feias..

Ivo Jeremias disse...

RJL, acredita em mim quando digo que existem novelas assim... não que eu seja espectador assíduo de novelas. Devo confessar que a única que vejo é a New Wave quando espero pelos morfes sentadinho no sofá,isto se não estiver a dar nada melhor noutro canal de documentários: História; Discovery Channel; Odisseia; S.H.; PTV...
Quanto a palavrões, bem devo dizer uso fluente e frequentemente... uso-os na sua verdadeira forma e essência... contudo faço adaptações dependendo das pessoas que se encontram em meu redor. "Dasse", "Feenix"; "Ónix"; "Fisga-se", etc etc etc... são alguns exemplos de adaptações.

Sofia Bento disse...

Caríssimos,
tomei a liberdade de ir acrescentando as biografias dos moradores desta casa. Deixei a minha própria em aberto, pelo que permito que acrescentem, retirem, editem.
Ainda me faltam alguns moradores e visitantes: deixei os mais difíceis para o fim.

Ivo Jeremias disse...

Biografias bem ilustrativas sem dúvida... depois de as ler, um mar de pensamentos aterroziam a minha mente... dois segundos depois recupero a capacidade motora e esqueço-me completamente daquilo que li. :)

Sinceramente, espero conhecê-los a todos melhor e dar-me a conhecer também.

TRAlves disse...

Eu não digo asneiras... não digo e pronto! Não há nenhuma ocasião em que um palavão contribua para a elevação da conversa que se esteja desenvolver, mas há muitas em que o contrário acontece.

Não preciso usar palavrões. Tenho esse princípio (uma coisa boa acerca dos princípios é que muitas vezes justificam-se a si mesmos). Respeito que os diga, mas eu não consigo... manias...

Sofia Bento disse...

Pronto, pronto, o sr. TRAlves não diz e nós não obrigamos ninguém...

RedScout disse...

Sofia: em relação à wiki, acho bem que tenhas escrito aqueles textos. Contudo, se calhar o local ideal para eles era a página dos blossecos...

TRAlves disse...

O RJT já tinha dito isso também, e no início concordei com ele, mas, pensando bem acho que fica bem como está.

Já para escrever muito mais coisas acerca de cada pessoa. Cada um poderia escrever um parágrafo acerca do que acha.

Sofia Bento disse...

Estou baralhada! Na página dos Blossecos ficou a descrição que já estava, mas cada blosseco tem link, então pensei que era para pôr nessa outra página. Mas se acharem que fica melhor tudo junto eu coloco. Para falar a verdade não sabia muito bem onde colocar...

RedScout disse...

Eu tinha ideia que a parte da biografia era para pormos algo mais 'a sério'...

Ivo Jeremias disse...

Eu tinha ideia que a parte da biografia era para pormos algo mais 'a sério'...Achas mesmo que alguém consegue?
Uma sugestão que vos apresento é colocarmos no topo da biografia de cada utilizador alguns dados biográficos. Nada de transcendental, tipo: Idade, Local de Residência, Nome, Ocupação... sei lá. Dados esses seguidos das actuais descrições.

Ivo Jeremias disse...

Agora para levantar o astral
Dois átomos conversam.
— Chi! Perdi um elétron.
— Tens certeza?
— Positivo.

Aviso na entrada de um hostpital:
Temos oxigênio em todos os apartamentos.

Um animal tem um carro em cima da cabeça. Qual é o animal?
R.:Macaco.

- O que é pior do que encontrar um urso polar?
— Encontrar um urso bi-polar.