sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Expressões

Millôr Fernandes, seja ele quem for (penso que é um humorista brasileiro), escreveu (ou pelo menos dizem que sim) mais uma relíquia a ler e guardar.
Intitula-se Foda-se

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz.
Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?

O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me.

"Não quer sair comigo?! Então, foda-se!"

"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! Então, foda-se!"

O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso.
São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"?
"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via Láctea tem estrelas comó caralho, o Sol é quente comó caralho, o universo é antigo comó caralho, eu gosto de cerveja comó caralho, entendes?

No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!".
Nem o "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem.
O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.

Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo "Jorginho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!". O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.

Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos.

Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.

E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do teu cu!"?

Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar:
"Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".

Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a conduzir bêbedo, sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se!



Um dia destes aventuro-me a contar aqui uma história real de como surgem as (más) piadas secas.

10 comentários:

RJT disse...

O Ricardo Araújo Pereira diz que usar palavrões para fazer rir é como fazer xixi(sp?) na cama: na altura em que o fazes, é quentinho e alivia. Mas depois pensas "É pá, eu fiz xixi na cama! Isto não se faz...".

Já o Miguel Góis diz que usar palavrões é um atalho.

Ricardo Araújo Pereira diz que não é bem um atalho...

Eu gostei de "comó caralho tende para infinito".

RedScout disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
RedScout disse...

Note-se que eu não escrevo palavrões, apenas me limito a transcrever os palavrões dos outros.

(Tinha faltado o não no comentário anterior)

lagrymapreta disse...

O blog a descer de nível e a não subir de interesse!
"Minha Nossa Senhora"

Nuler disse...

simplesmente genial...

RedScout disse...

A menyna tem alguma coysa contra o post? É que se tem, só temos de marcar uma data para dyscutyrmos ysso pessoalmente. Aynda contynuo à espera de saber quando vamos beber um copo ao DD.

Não sei se ainda estou autorizado a fazer convites destes aqui no blog...

RJT disse...

Para citar o Talib Kweli:

I don't care who she's speaking with, because I already know she made it clear who she's leaving with

RJLouro disse...

Como eu já tinha dito anteriormente, o recusro ao palavrão é para mim visto como um recurso fraco e básico a apelar à piada fácil. Basta ver o Fernando Rocha e comparar por exemplo ao Gato Fedorento, Seinfeld, Monty Python, etc, etc. Todos têm o seu mercado alvo e eu afasto-me o mais possível do mercado alvo do Rocha.

Não sei se conhecem outro génio do Stand Up que é o George Carlin. Este homem recorre ao palavrão de uma forma que me desagrada, muito frequentemente e para acentuar a piada. Ora neste caso o que me irrita ainda mais é que as piadas são excelentes, o recurso ao palavrão era completamente desnecessário, e normalmente acho que já filtro isso automáticamente quando ouço ou leio qualquer coisa dele.

Uma piada em si tem que ter piada, não é uma palavra que faz a piada, é o conjunto, é o seu significado. Sinceramente fazer humor à custa do palavrão é deprimente.. Até o Quim Barreiros consegue arranjar trocadilhos melhores sem palavrões.

RedScout disse...

O que está aqui em causa não é a utilização do palavrão para ter piada (por vezes acaba por retirá-la) mas sim o uso dos chamados palavrões no dia a dia sem qualquer sentido, digamos, mau.

Tanto este texto com o do Miguel Esteves Cardoso mostram que por vezes a utilização de palavrões é saudável e faz bem a nós próprios.

De certeza que quando queres mostrar a alguém que não estás minimamente interessado em ouvir a sua conversa não usas Olha, vai chater o pénis nem Não me copules a cabeça.

RJT disse...

Vai chatear o pénis... Gostei, acho que vou passar a utilizar